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A Guerra dos Emus: o Exército australiano perdeu para pássaros

Em 1932 a Austrália enviou soldados e metralhadoras contra 20 mil emus. Os pássaros venceram. A história real da campanha militar mais constrangedora do século.

Rodolfo Franzim de Andrade2 min de leitura

Em novembro de 1932, o governo da Austrália declarou guerra a um pássaro. Mobilizou soldados, duas metralhadoras e dez mil cartuchos. Um mês depois, retirou as tropas sem ter cumprido o objetivo.

O adversário era o emu — ave de dois metros de altura que não voa, corre a 50 km/h e, naquele ano, decidiu migrar em massa para as plantações de trigo da Austrália Ocidental.

Por que havia 20 mil emus em uma plantação

O problema começou com uma promessa. Depois da Primeira Guerra Mundial, o governo australiano assentou veteranos em terras da região de Campion, incentivando o cultivo de trigo. Quando a Grande Depressão derrubou os preços em 1929, os subsídios prometidos não vieram e os produtores ficaram sem margem.

Foi nesse momento que cerca de 20 mil emus concluíram sua migração anual e encontraram, no caminho, algo que não existia antes: quilômetros de trigo irrigado e cercas convenientemente derrubadas por eles próprios — pelas quais coelhos também passaram a entrar.

Os fazendeiros, muitos deles ex-combatentes, foram até Camberra falar com o ministro da Defesa, Sir George Pearce. O pedido era específico: metralhadoras.

A operação

Pearce autorizou. A missão coube ao major G. P. W. Meredith, da Sétima Bateria Pesada da Artilharia Real Australiana, equipado com duas metralhadoras Lewis e 10 mil cartuchos. O governo tratou a operação como treinamento de tiro — e mandou junto um cinegrafista, esperando registrar uma vitória fácil.

A primeira tentativa aconteceu em 2 de novembro. Cerca de 50 emus apareceram, mas fora do alcance efetivo. Os fazendeiros tentaram tocá-los na direção da emboscada. Os emus se dividiram em grupos pequenos e dispersos — exatamente o comportamento contra o qual uma metralhadora é inútil.

Dois dias depois, Meredith montou uma emboscada perto de uma represa e conseguiu o que quase deu certo: aproximadamente mil aves vieram na direção certa. A metralhadora travou depois de doze abates.

Em uma terceira tentativa, Meredith montou uma arma sobre um caminhão para perseguir o bando. O terreno era tão irregular que o atirador não conseguiu disparar uma única vez com pontaria.

Em 8 de novembro, com a imprensa já tratando o assunto como piada, o Parlamento australiano discutiu a operação e as tropas foram retiradas. A pressão dos fazendeiros trouxe os militares de volta em 13 de novembro, e a campanha se arrastou até 10 de dezembro.

O resultado oficial

O relatório de Meredith registrou cerca de 986 emus abatidos com 9.860 tiros disparados — quase dez cartuchos por ave, em uma população de 20 mil. Ele argumentou que outras mil aves teriam morrido depois em razão dos ferimentos, número que nunca foi confirmado.

O próprio major deixou registrada a avaliação mais citada do episódio: se houvesse uma divisão militar com a capacidade dos emus de absorver dano, ela enfrentaria qualquer exército do mundo. E acrescentou que os emus tinham a invulnerabilidade de tanques.

O que realmente resolveu

Os fazendeiros voltaram a pedir apoio militar em 1934, 1943 e 1948. O governo recusou todas as vezes. A solução veio de um mecanismo bem menos cinematográfico: um sistema de recompensa por ave abatida, pago aos próprios produtores. Em seis meses de 1934, foram registradas 57 mil aves — sem um único soldado envolvido.

A cerca de proteção contra pragas, ampliada nas décadas seguintes, fez o resto.

O episódio sobreviveu porque expõe algo desconfortável: a tecnologia militar mais avançada de uma nação foi derrotada não por estratégia inimiga, mas por uma incompatibilidade básica entre a ferramenta e o problema. Metralhadoras foram projetadas para atingir formações humanas paradas. Emus não formam fileiras.

Perguntas frequentes

A Guerra dos Emus aconteceu de verdade?
Sim. Foi uma operação militar oficial conduzida pela Artilharia Real Australiana entre 2 de novembro e 10 de dezembro de 1932, no distrito de Campion, na Austrália Ocidental, e debatida no Parlamento australiano.
Quantos emus foram mortos na operação?
O major G. P. W. Meredith relatou cerca de 986 emus abatidos com aproximadamente 9.860 tiros disparados — quase dez tiros por ave, contra uma população estimada em 20 mil.
Por que o Exército australiano perdeu para os emus?
Os emus se dispersavam em pequenos grupos ao primeiro disparo, correm a até 50 km/h e resistiam a ferimentos que matariam outros animais. As metralhadoras Lewis, projetadas para alvos humanos em formação, eram inúteis contra alvos rápidos e espalhados.

Fontes

  1. Hansard — Debates da Câmara dos Representantes da Austrália, novembro de 1932
  2. Murray Johnson, 'Feathered foes: soldier settlers and Western Australia's Emu War of 1932', Journal of Australian Studies

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Sobre o autor

Rodolfo Franzim de Andrade

Pesquisa e escreve sobre episódios improváveis da história, sempre partindo de fontes primárias e documentação verificável. Editor do Loucuras da História.

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